domingo, 15 de julho de 2012

O Preço do Discurso






"Se prestares atenção no teu discurso, perceberás que ele é guiado pelos teus propósitos menos conscientes." (George Eliot)



Através de intensos estudos sobre os discursos de grandes oradores, Demóstenes tornou-se um político cuja oratória virou referência, a brilhante demonstração da capacidade intelectual de homens de seu tempo.  Em decorrência de suas escolhas políticas, Demóstenes, ao ver-se cercado por inimigos, cometeu suicídio, foi o fim da carreira política e vida de um dos maiores oradores que a Grécia antiga conheceu.

Ao escrever no prefácio do livro editado pela OAB, em comemoração a Lei Da Ficha Limpa, lei na qual o ex-senador Demóstenes Torres foi relator, ele deixa escapar o sentido mais evidente de seus discursos no Senado Federal, ao dizer que há um número de “bandidos abrigados na vida pública”.

O Demóstenes brasileiro parece se espelhar fielmente no Demóstenes grego, a oratória marcante do ex-senador sempre se mostrou muito perto do ideal nas palavras articuladas, na defesa suprema da conduta parlamentar, na manutenção da honradez com a qual falava sobre política e sociedade.

Mesmo a gagueira ora enfrentada por Demóstenes grego, parece incorporada pelo Demóstenes contemporâneo na forma amedrontada e insegura com a qual demonstrou no último discurso como senador. Se for atestado de culpa ou não, essa é outra questão.  Contudo, parece que o segundo optou pelo suicídio antes mesmo de ser cercado por seus “inimigos” e até mesmo, correligionários.

A diferença entre os Demóstenes’s é o tempo de morte. O político que aqui conhecemos já se encontrava “morto” quando se percebeu cercado por seus semelhantes no plenário do Senado Federal. Apesar do tom dramático, declarando nas entre linhas humilhação na condição em que estava. Este Demóstenes encontrou dezenas de braços cruzados e olhares incrédulos, “juízes” convictos do veredito a ser concretizado.

A semelhança entre os dois Demóstenes’s se acrescenta na negativa em “entregar-se” aos “opositores”. Na busca desesperada até o último momento para fugir do efeito proveniente de suas escolhas. Séculos os separam, em contrapartida, a política os uniu numa mesma certeza: Todo discurso tem seu preço.






terça-feira, 10 de julho de 2012

A Divina Ciência: Bóson de Higgs





Construído no Centro-Oeste europeu, na fronteira entre França e Suíça, a cerca de 100 metros solo adentro, compreendendo 27 quilômetros de extensão. O chamado Grande Colisor de Hádrons (LHC) é um túnel no qual concentram-se os mais importantes experimentos científicos de todo o mundo.

O LHC é um gigantesco acelerador de partículas que custou nada menos que US$ 10 bilhões. Porém, não fica muito difícil imaginar o que seria a maior máquina já construída na história da humanidade ao inserir no atual contexto a obra cinematográfica, Anjos e Demônios (filme de Ron Howrd, 2009).

No filme há um episódio onde uma quantidade de antimatéria é guardada em uma caixinha e utilizada como ameaça para destruir o Vaticano.  Na trama, a antimatéria em questão é produzida no Cern (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), exatamente o local onde está localizado o LHC.

Dado por isso, matéria é qualquer coisa que ocupa um lugar no espaço e possui massa, formada por átomos e partículas, que por sua vez são os elementos fundamentais da matéria, as menores partes.  De tal modo que a antimáteira é a junção de antipartículas, que por sua vez são partículas com carga elétrica inversa da partícula comum.

Leia-se o exemplo: pósitrons são elétrons com carga positiva ao invés de negativa

No filme, a ameaça se explica do modo de que quando a antimatéria entra em contato com a matéria comum, essas partículas iguais, mas com carga elétrica diferente, colidem para uma explosão emitindo radiação à velocidade da luz, o que causaria uma destruição arrasadora,  evidentemente no contexto da ficção em questão.

Dentre as partículas que formam a matéria, a mais importante, que realmente é responsável pela formação da massa de tudo que existe é a Bóson de Higgs, de acordo com o que argumentam os especialistas.

Acredita-se que esta seja a partícula subatômica fundamental para que se compreenda como as outras partículas ganham massa formando a matéria, o que teoricamente explicaria a formação do universo e de todas as coisas.

O Bóson de Higgs é totalmente compatível com a teoria do Big Bang (criação do universo). No momento exato do Big Bang a temperatura era infinita, não existia matéria, apenas energia, onde partículas viajavam na velocidade da luz, o que dificultaria interação entre elas e, por conseguinte, não se formava matéria.

Num dado momento a temperatura do universo baixou para 100 bilhões de graus, deste modo foi possível o surgimento das partículas quarks e léptons, responsáveis pela formação do átomo.  A partícula Bóson de Higgs, dotada de energia, começou a atuar no chamado Campo de Higgs, que também surgiu após o resfriamento. 

O campo de Higgs, sob o efeito da energia da Bóson de Higgs acabou por criar resistência ao movimento das partículas, deste modo ficou mais propício a colisão entre elas e a formação da massa, haja vista algumas partículas começarem a se movimentar de forma mais lenta. O Campo de Higgs é um imenso vazio cheio de partículas em intensa atividade de colisão, como ocorre todo o tempo no universo.

O maior acelerador de partículas já construído faz o mesmo processo que ocorre no universo: Prótons (partículas do núcleo do átomo) são colocados em sentidos opostos até atingirem algo muito próximo da velocidade da luz, algo em torno de 99, 9999991% desta velocidade.

 Logo, em determinado momento elas colidem, os fragmentos que restam do forte impacto são outras partículas, dentre elas há a que irá determinar a maior freqüência das próximas colisões, a Bóson de Higgs.

 Mesmo em face da gigantesca importância que se atribui ao evento que pode mudar e ou confirmar para muitos, a concepção de mundo, de nós mesmos, há quem desconfie da existência da Bóson de Higgs.

Quando foi anunciada a criação do Cern, pessoas do mundo inteiro acreditavam que a grande máquina, o LHC, faria um buraco no interior da terra, levando todos a um fim catastrófico. 

Após o anúncio da criação de uma partícula cujas características levam a crer que se trata da Bóson de Higgs, físicos americanos se dizem acreditar que seja na verdade umas das duas variedades exóticas da primeira, mas não a própria partícula.

Embora a teoria seja defendida há quase 50 anos e o físico inglês Peter Higgs tenha previsto a existência da partícula na qual seu nome surgiu do seu próprio sobrenome, o que se tem a pensar é, sobretudo, como e o quanto a confirmação do evento pode interferir no pensamento de milhares de pessoas e guiar a humanidade para novas possibilidades. 

Na ótica de pensar o “de onde viemos para então sabermos para onde vamos”, para muitos pode interferir diretamente em sua concepção de mundo.

Além da Bóson de Higgs ser chamada de Partícula de Deus por conta de uma alteração do título de um livro cujo nome seria The God Damn Particle, porém resolveu-se tirar o “damn” e assim permaneceu apenas The God Particle (A partícula de Deus), o que interfere diretamente é a provável nova descoberta se contrapor essencialmente sobre toda a ideia compartilhada de que Deus foi o responsável pela criação do universo e de todas as coisas.

Apesar de alguns cristãos defenderem a conciliação entre ciência e religião, sabe-se que a sustentação da fé é propriamente oriunda da explicação divina para a formação do cosmo, o criacionismo é utilizado por distintos segmentos religiosos como forma de garantir a legitimidade da razão de ser daquela religião.

A ciência, ao chegar muito próxima da explicação responsável pelo entendimento do início de tudo, se contrapõe de forma quase gritante, sobre a crença de milhares e que acreditam na formação de tudo que existe a partir de forças sobrenaturais, divinas.

Hoje, a ciência é a matéria-prima para a tecnologia do futuro próximo, para efeitos globais, a Bóson de Higgs pode alterar importantíssimos aspectos do modo pelo qual a energia é entendida e produzida, justificando dessa forma o investimento de 20 bilhões de euros neste projeto.

Apesar do teor controverso, o mais interessante seria que a partícula conhecida não fosse a própria Higgs, isso demonstraria que a complexidade na formação da matéria é ainda maior, elevando o homem a patamares mais distantes ainda, dando legitimidade a razão de ser da ciência divina de tão extraordinária que é: a permanente busca por respostas impossíveis, até determinado momento.












segunda-feira, 18 de junho de 2012

Marconi Perillo, o idealizador do Bolsa Família


- Lei n° 10.836, de 9 de Janeiro de 2004: Cria o Programa Bolsa Família e dá outras providências.

Art. 1o Fica criado, no âmbito da Presidência da República, o Programa Bolsa Família, destinado às ações de transferência de renda com condicionalidades.


        Parágrafo único. O Programa de que trata o caput tem por finalidade a unificação dos procedimentos de gestão e execução das ações de transferência de renda do Governo Federal, especialmente as do Programa Nacional de Renda Mínima vinculado à Educação

- Bolsa Escola, instituído pela Lei nº 10.219, de 11 de abril de 2001 (governo FHC)
 -Programa Nacional de Acesso à Alimentação - PNAA, criado pela Lei n o 10.689, de 13 de junho de 2003 (governo Lula)

-Programa Nacional de Renda Mínima vinculada à Saúde - Bolsa Alimentação, instituído pela Medida Provisória n o 2.206-1, de 6 de setembro de 2001 (governo FHC)

-Programa Auxílio-Gás, instituído pelo Decreto nº 4.102, de 24 de janeiro de 2002 (governo FHC)

-Cadastramento Único do Governo Federal, instituído pelo Decreto nº 3.877, de 24 de julho de 2001. (governo FHC)


Alteração do decreto: (ver Diário Oficial da União de 18 de Junho de 2012.)

http://www.in.gov.br/imprensa/visualiza/index.jsp?jornal=1&pagina=1&data=18/06/2012


Com a colaboração de Cícero Gomes (link p/ vídeo)

Apesar do Bolsa Família ter sido criado legalmente apenas em 2004, os programas de assistência social, que hoje o integram, em 2003 já atendiam em torno de cinco milhões de famílias.  Antes disso, em 1997, os únicos países no mundo que utilizavam programas de transferência condicionada de renda, eram apenas: México, Bangladesh e Brasil.

No entanto, diante dos bons resultados alcançados na utilização desses programas no combate à pobreza, em 2007 quase todos os países da América Latina já tinham inserido em seus planos de governo, programas de assistencialismo similares.

No mesmo ano, na cidade de Nova York, foi adotado o programa “Opportunity NYC”, inspirado parcialmente no programa brasileiro. Hoje, o Banco Mundial e a ONU recomendam o Bolsa Família, assim como o Banco Interamericano de Desenvolvimento.

 O programa é tido como uma das raras coisas, em que países em desenvolvimento dão lição a países já desenvolvidos. O presidente do Banco Mundial, Paul Wolfowitz, disse que o Bolsa Família é um programa modelo para países do mundo inteiro, e que por isso está sendo adotado em várias partes do mundo, especialmente com o intuito de combater a miséria.

Segundo dados, 0,4% do PIB brasileiro em 2006, o que representa em torno de 8,2 bilhões, foram recebidos pelas mais de 11 milhões de famílias.  O que justifica também a redução em torno de 27,7 % do índice de miséria entre os anos de 2002 e 2006.

“O programa Bolsa Família parece ter um viés rural. A pobreza rural é grande no Brasil, mas mesmo assim, a incidência do programa em áreas rurais é alta: 41% dos domicílios rurais estavam matriculados em 2006, contra 17% das zonas urbanas. Nas duas maiores cidades, São Paulo e Rio de Janeiro, menos de 10% das famílias estão no programa.” (The Economist, 29 de Julho de 2010).

As evoluções atribuídas ao programa são incontestáveis, pode-se citar dados e mais dados positivos no que refere aos efeitos a longo prazo deste tipo de benefício social.
Mas pelo contrário, o que pode e deve ser contestado é a forma como ele é utilizado, como é visto. E combater as distorções que o rodeiam.

O Bolsa Família, programa resultado da unificação de outras políticas sociais pré-existentes, foi idealizado pelo atual governador do estado do Goiás Marconi Perillo (PSDB-GO). No lançamento do programa em 2003, o na época presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP), deixa claro que a ideia para a unificação dos programas veio de Marconi Perillo.

Mas em contrapartida, com o sucesso concretizado através das medidas de transferência de renda, o governo federal passou a tomar para si o mérito da idealização do Bolsa Família. Apesar de não ser o mais relevante, é sem dúvida desonestidade com quem acredita fielmente no lhe é dito por quem aparentemente carrega boa fé.

O problema está no ponto onde o eleitor, o mais necessitado e que por isso depende também (ou só) do programa, entende que essa é uma clara condição para a oferta do voto.  No governo Lula foram ditas tantas vezes que seu governo foi o responsável pela criação do Bolsa Família, que sua figura era claramente relacionada aos benefícios recebidos. (Uma Mentira contada mil vezes, torna-se uma verdade, Joseph Goebbles)

A popularidade do governo Lula, só ultrapassada por Dilma Rousseff (PT), foi fundamentalmente por conta dos avanços sociais, exatamente pelo cunho eleitoral que o programa proporciona. 
É natural que quanto menor o grau de instrução do indivíduo, o menor conhecimento que ele adquire, mais fácil será de manipulá-lo. Assim foi feito com o intuito eleitoral.

Evidentemente os avanços sociais mais fortemente sentidos foram no governo Lula, porém através do uso explicito demagógico, houve manipulação de opinião pública quanto à meritocracia da criação. (A demagogia é a capacidade de vestir ideias menores com palavras maiores, Abraham Lincoln)

O Bolsa Família é apenas um exemplo da demagogia que é, quando se tira o mérito de outros governos por determinados outros.  O Plano Real é um exemplo claro do plano responsável pela estabilização econômica brasileira na década de 90, onde o ex-presidente Lula, por exemplo, foi contra (quando ainda não era presidente), mas que depois seu governo colheu os frutos do sucesso da única moeda que deu certo no Brasil.

Igualmente, essas medidas desonestas, influenciam a consciência de muitos brasileiros que não sentem a força da alienação sobre eles exercida. E inocentemente (e erroneamente) julgam de forma equivocada a história do desenvolvimento do país ao longo dos governos.

Desse modo, a saída é através da própria imprensa que, tem o dever de informar quantas vezes for preciso, para que o brasileiro esteja consciente do que realmente é efeito através dos governos, quais governos e de como isso é feito.

Mas não se pode permitir que se tenha por finalidade, utilizar o efeito de bons frutos, para proveito eleitoral. Sem o devido reconhecimento, sem a informação verdadeira que é direito de todos, que precisam de consciências lúcidas, longe da manipulação de má fé.














quinta-feira, 24 de maio de 2012

A Educação Constitucional como Dispositivo Democrático


A política foi, inicialmente, a arte de impedir as pessoas de se ocuparem do que lhes diz respeito. Posteriormente, passou a ser a arte de compelir as pessoas a decidirem sobre aquilo de que nada entendem. (Paul Valery)





Aos olhos do jurista José Gomes Canotilho, Constitucionalismo é a teoria responsável por dar legitimação às bases do governo organizado em leis, limitado e garantidor dos direitos político-sociais dentro da estrutura de uma determinada sociedade.

É dentro dessa perspectiva que a Constituição Federal da República (CF/88), deve então por função primária, se estabelecer. Não há momento inoportuno para que se discuta a educação, sobretudo, quando esta não é eficiente no sentido de formar indivíduos prontos para o exercício da plena cidadania.  Mesmo porque, cidadania em sentido puro diz do indivíduo que possui diante de si, um conjunto de direitos e deveres diretamente relacionados à sociedade onde este mesmo indivíduo está inserido.

De modo que há a perda da razão do ser cidadão, diante da ausência de competência deste em conhecer esses mesmos direitos e deveres, exatamente pelo desconhecimento que este cidadão (leia-se: por denominação teórica) tem sobre o conjunto de leis que rege todo o seu comportamento sobre a comunidade.

Sobre Emílio, Rousseau diz que esta foi a melhor e a mais importante de todas as obras que já escreveu, na forma de relacionar filosofia e política em referência a relação do indivíduo com a sociedade. Propõe o filósofo, um sistema de educação onde este indivíduo possa manter uma conduta moral ilibada diante de uma sociedade inevitavelmente corrupta. Exatamente sobre a ótica que se coloca com questionamentos comuns, que visam estabelecer ideias fortalecedoras do ideal de cidadão correto em face de uma sociedade que está intimamente inserida em práticas desonestas.

A denominação de cidadania e, mesmo a CF/88 tratam da participação popular no processo político, que deve se estender além do voto.  Contudo, não há essa consciência de interação que o denominado cidadão deve saber. 

Assim o é, exatamente pela ausência de educação constitucional que vise tornar este cidadão um indivíduo esclarecido que entenda o funcionamento do corpo estatal e desse modo, goze da democracia que é quando se confere a esse de um modo ou de outro, a soberania popular.

Toda a problemática está na deficiência do sistema de educação. No Brasil, a população de ignorantes perante a Constituição é de uma forma tão acentuada que se reflete diretamente na desigualdade social, no nítido desfavorecimento de quem não tem o conhecimento de seus direitos fundamentais e por isso mesmo deixa de tê-los garantidos na prática.

Distante do saber das leis, o indivíduo comum, não possui o louvável esclarecimento para cobrar da própria sociedade ações que busquem em sua essência a moralidade administrativa. 

Os governos, assim possuem espaço para fazer uso das mais diversas formas de cometer irregularidades, injustiças e improbidade de toda ordem, através da falta de fiscalização que o cidadão comum não faz exatamente por não saber que assim possa agir.

Sem a devida Educação Constitucional, o cidadão, titular do poder soberano- no arquétipo estatal democrático – acredita, simploriamente, que o Estado não lhe pertence e que as riquezas, as propriedades estatais são coisas sem dono, que qualquer um pode destruir ou se apropriar, impunemente. Daí podemos inferir, entre nós, a razão de ser da ainda enorme tolerância popular para com a corrupção política, para com os políticos.. (grifo nosso).

Desse modo, o que é recepcionado pela própria constituição brasileira deixa de vigorar no sentido literal, devido a pratica de corrupção infiltrada no poder público e na própria sociedade que o compõe. A própria educação torna-se controversa ao seu comparativo legislativo e forma prática.

Art. 205 – A educação, direito de todos, e, dever do Estado e da família, será promovida e incentivada como a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação profissional.

Ora, se a educação é um Direito de todos e um Dever do Estado, para ser ter cidadania de fato então a realidade educacional no mínimo, deve ser bastante diferente da qual é oferecida aos brasileiros, cuja leitura rápida de seu coeficiente do nível de ensino está muito distante do necessário para a formação de verdadeiros cidadãos.

É nessa ausência de educação, de educação constitucional que torna a democracia mais utópica a cada indivíduo que muitas das vezes, por até mesmo dificuldade com a literatura jurídica, deixa de provar de seus direitos e de cumprir com seus deveres. Deixa de contribuir para a manutenção de uma sociedade justa e voltada para o bem coletivo.

Este mesmo indivíduo, quando não sabe usar a lei a seu favor, pode até mesmo sofrer dos abusos, através da autoridade, através da força proveniente do autoritarismo do governo que não educada, que não esclarece. Há de exemplo prático, os abusos de autoridades quando em muitos dos casos há algum tipo de manifestação popular, que ao ser reprimida impondo a força, fere o direito do indivíduo de livre manifestação.

Erradamente muitos são punidos e apenas sofrem, pois o que não pertence ao mundo de sua consciência não pode haver questionamento sobre, e esse é o ponto fundamental, a não possibilidade de elaboração do questionamento crítico fortalece apenas o autoritarismo.

Crimes de desacato, resistência, e desobediência são remanescentes da redação original do Código Penal de 1940, aprovado sob o regime fascista de Getúlio Vargas. (grifo nosso).

A falta de intimidade do brasileiro com as leis que determinam como o Estado Democrático de Direito brasileiro (regime adotado pelo Brasil) funciona, atestam apenas o estado antidemocrático exatamente pelo modo como o próprio brasileiro vive. Como a soberania popular perde a legitimidade a não ser conferida a ela através do povo, essa tal soberania, mas que pelo contrário, soberano deste modo é verdadeiramente o estado brasileiro.

Impedir que o povo explore a função dos direitos fundamentais, como legítima forma de democracia, de estado justo e libertário (seria se assim fosse), é sobretudo desobedecer às próprias leis, às próprias determinações, bem maior que propõe a própria cosntituição, o bem comum, a justiça social. 

 Ao povo que precisa, assim como na Grécia clássica, estar esclarecido quanto as normas e conhecer a verdadeira cidadania através da ativa participação na administração pública, no comércio, na sociedade como um todo.  Este cidadão brasileiro, precisa, através da verdadeira obtenção de seus direitos fundamentais exercer a cidadania tão cobrada dele em período eleitoral.












domingo, 6 de maio de 2012

Por que Estudar a Mídia?


     Ao se estudar determinados questionamentos, defronta-se muitas das vezes com uma complexidade de divergências. De forma que se deve considerar inúmeros aspectos e pontos que formam a mesma complexidade a fim de compreender o porquê e finalmente a resposta satisfatória para o mesmo questionamento. E, evidentemente abre-se espaço para outras inquietações que certamente se descobrirá num universo de ideias interligadas.
     Ao inquietar-se com questões midiáticas e outras relacionadas, o autor de “Por que estudar a mídia?” Roger Silverstone, esboça ideias um tanto comum, mas que fogem à nossa percepção cotidiana. Questões reflexivas de interesse geral, questões fundamentais que movem o mundo e que sem a força que possuem, a humanidade certamente seria distinta, em seus principais aspectos, do que se conhece na contemporaneidade.
     Questionar suas atribuições e tudo que rodeia a mídia parece um tanto arriscado, pois ser simplório neste caso tende ao erro. E o desenrolar de toda essa perspectiva parece compor-se de distintos aspectos vivos, pois ao se começar a análise, defronta-se com o movimento social inteiramente midiático, estabelecendo-se aí o mergulho da sociedade no mundo das mediações.
     Para se compreender determinados componentes midiáticos, Silverstone inicia pelo senso comum, indica o inconsciente como ponte para se chegar a ideias obscurecidas da mente. A mídia forma a experiência, individual e coletiva, a experiência cotidiana, a mídia se configura como um processo abrangente que se chama mediação, que é feita por nós, e para nós.
     Precisamos compreender como funciona esse processo, suas particularidades, precisamos entender que nós somos a mídia, que nossa participação é protagonista, que ela estabelece nossa rotina, nossos horários, e evidentemente, nosso comportamento.  Saber como a mídia participa e forma a globalização, como ela forma a cultura, como denomina nosso espaço.
     E dentro das perspectivas de avaliação midiática, encontramos elementos relevantes discutidos por Silverstone, tais como: Consumo, Tecnologia, Mediação, Globo, Erotismo e tantos outros. E como agente diversificador, O Outro, pois no reconhecimento deste, há o reconhecimento da diferença, e dessa forma formamos nossa própria identidade, o nosso senso individual. Essas e muitas outras, são questões primordiais que sem dúvida, estabelecem pontos esclarecedores para o questionamento a respeito das atribuições da mídia.
  Evidentemente, há questões ainda mais gerais, como a política da mídia, um tanto polêmica, pois se trata fundamentalmente do poder atribuído à mesma. Poder esse que modifica costumes, introduz outros, o poder de formar opinião e até mesmo de alterar processos políticos.  O poder de mover toda a sociedade, então é tão importante compreender o processo de mediação porque ele simplesmente é a base da nossa vida cotidiana.
     Entender os componentes da mídia é entender nós mesmos. Toda a vida em sociedade, é entender porque a história tomou os rumos que hoje conhecemos, e mais do que isso, é saber lidar com ideias que comandam nosso espaço e dessa forma se libertar do efeito da alienação total.
     Saber quais as implicações da mídia para com a política e nesse sentido, seu poder se faz fundamentalmente nos rumos que tomam os governos na esfera pública. De forma que abrange a todos, seja através dos veículos de comunicação, seja por contato direto e pessoal. O fato é que saber como se dá um processo em que nós estamos envolvidos intimamente, nos ajuda a compreender como funciona nossa sociedade.
     Fica claro dessa forma, que em “Por que estudar a mídia?”, Silverstone, faz uma análise de questões políticas, sociais e econômicas, de como a comunicação concretiza-se na Sociedade do Espetáculo de Guy Debord, de como a mídia é a sociedade e a sociedade é a mídia. Estabelecendo nosso espaço, nossas concepções.






“E nós que estudamos a mídia precisamos tornar a mídia inteligível. Não se trata de um projeto fácil, nem confortável. Mas o perseguimos na esperança de que depositando um grão de areia numa ostra a irritação causada por nossa presunção irá, de tempos em tempos se converter em pérola.”

(pág. 283, Por que estudar a mídia? Roger Silvestone)


domingo, 15 de abril de 2012

Woody Allen e a Junção de Sonho e Realidade

“Os reais querem vidas fictícias e os fictícios querem vida real.”
Cecília, a mocinha, é a fonte de tudo. Ela relata os principais problemas de sua época, os seus maiores problemas. E com os olhos entusiasmados revela sonhos, sonhos de uma vida melhor, de um romantismo original, mostrando-se tão mulher, tão humana, que até no nome espalha brilho, Cecília.


A rosa púrpura do cairo, 1985, Woody Allen

O contexto incentiva a entrega de Cecília ao abraço carinhoso do cinema, era seu refúgio. Década de 30, Nova Jersey, Estados Unidos. A depressão econômica tornava a vida muito difícil, a pobreza e o desemprego são questões lembradas diversas vezes pela personagem.

Vivia-se com um sentimento coletivo de fracasso, compartilhado desde a quebra da bolsa em 29. Jovem, muito bonita, Cecília trabalhava como garçonete para sustentar a casa, era casada com um homem desempregado, a crise fez com que a fábrica onde trabalhava fechasse.

Como se não bastasse, além de ter de trabalhar muito, o marido, um viciado em álcool, levava mulheres para dentro de casa e batia em Cecília. Então a pobre sonhadora vivia a mergulhar nos encantos do cinema.

“A rosa púrpura do Cairo” parece um presente de Woody Allen, que escolhe de forma mágica como demonstrar a impressão de realidade no cinema, que a todos arremata. De como o espectador se sente parte da história, ultrapassando a fotografia que apesar de representar fielmente a realidade capturada, o cinema propõe algo a mais.

O movimento dos elementos representados na tela de cinema sinaliza a existência de vida, nós fazemos uma relação direta entre estar vivo e o movimento. Talvez por isso em primeiro lugar procuramos ficar imóveis quando nos fingimos de mortos.

Woody Allen apresenta “A rosa púrpura do Cairo” em 1985, mas as preocupações são do período em que se passa a história, da Grande Guerra, as pessoas estavam sem esperança ao presenciar a pobreza avançar sobre seus lares. O cinema era a fuga de tantas frustrações, era preciso sonhar um mundo sem problemas, onde tudo era perfeito, onde havia pessoas felizes e inteligentes, apenas desfrutando da vida. Perfeito para suprir as necessidades e o profundo desejo de todos.

O sonho de Cecília com o homem perfeito era realizado com o personagem do filme em que ela assistiu por cinco vezes. Tom Baxter era honesto, fiel, romântico, corajoso e beijava muito bem. Como em todas as vezes em que via o filme, Cecília se nutria de um desejo tão grande de viver aquela realidade, que seu olhar não tinha outra direção.

Então quando o personagem Tom Baxter de repente sai da tela de cinema e vai ao seu encontro na plateia, os mundos se confundem. Será o mundo do cinema a realidade? Ou Cecília está apenas sonhando a tal ponto que o personagem se torne real para ela?

Este é o grande momento em que a impressão de realidade no cinema se extrapola e o personagem consegue interferir no mundo real, consegue tirar sua vida da tela para fora dela. A ficção ganhou contornos concretos, a sensação proporcionada pelo cinema de que aquilo está acontecendo de fato naquele momento, aliada ao movimento do personagem, nos causa a fortíssima impressão de que estamos vivenciando aquilo.

De trata-se de uma história real, então trazemos toda aquela problemática para nós e sofremos ou não, como se fôssemos diretamente afetados. Isso tudo é justificado em emoções demonstradas naturalmente por nós.

Mas Arnheim diz que o cinema está entre o teatro e a fotografia, e por isso entre as duas artes, o cinema possui uma carga maior de realidade. A fotografia, apesar de fidedigna quanto a representação do real, não demonstra a credibilidade suficiente para dotar-se de vida, pois seus elementos não são providos de movimento.

No entanto, o teatro em seus acessórios de produção, nutre-se demasiadamente do real, o público está muito próximo, não há no teatro nenhuma ideia de ficção que forneça ideias no imaginário do expectador. Mas o cinema contém a separação física, a separação de espaço que faz com que quem esteja vendo, altere o seu imaginário e receba aquela situação no momento em que acontece com elementos fictícios, mas que aos olhos já entraram chegando a mente que projeta e sente a realidade do filme.

Em “A rosa púrpura do Cairo” Woody Allen a todo momento, trata dessa impressão de realidade, da realidade do filme que o expectador trás para si, pois Cecília chega a entrar literalmente na tela de cinema, é a representação concreta de como nós adentramos na história. Cecília se envolve de uma forma que sente como se chegasse a se apaixonar pelo personagem. Entra no mundo tão desejado e se sente realizada por viver tudo o que sempre sonhou.

Trata do homem perfeito, dos desejos femininos, das tristezas da época, da mágica que o cinema propõe sobra nossa percepção, sem esquecer que há todo um contexto que irá influenciar diretamente com percebemos o cinema, o estado de espírito de cada um que irá determinar impressão causada pelo filme. De como o expectador se comporta ao interagir com os atores do filme, encarando aquela situação como verdadeira, tratando os personagens como iguais.

De como o cinema está tão inserido na forma como pensamos o real, de como percebemos esta realidade e nos colocamos na história que é contada. Dos elementos que fazem o cinema, nos deixam intimamente participantes do que à primeira vista é ficção, mas que sentimos como se os reais quisessem vidas fictícias e os fictícios quisessem vida real.

Woody Allen não se esquece de demonstrar a intenção do personagem em entrar no mundo real, através de outros personagens que tentam sair da tela para ganhar vida fora da história e termina com o clássico “A alegre divorciada” com Fred Astaire e Ginge Rogers dançando com Fred cantando Cheek to Cheek, música de Frank Sinatra.


                                          A alegre divorciada, 1934, Mark Sandrich

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Bipartidarismo Estadunidense

Bush, o republicano, sai em 2009 para a entrada de Obama, o democrata. Apesar da emergência contemporânea dos dois partidos, nos Estados Unidos, há outros grupos no corpo político do país. Porém, a começar pela constituição estadunidense que em sua criação, em 1787, não recepcionou as funções e nem os próprios partidos políticos, pois muitos grupos ficam de fora da grande plataforma visível. Ocorre que se confere ao país, um sistema bipartidário fruto de arrumações do próprio sistema eleitoral, que na forma como se concretiza, deixa pouquíssimo espaço para outros partidos políticos.

Para o legislativo estadual e nacional, as eleições são feitas no modo distrital de “representante único”. Em outras palavras, aquele que receber o maior número de votos em qualquer distrito eleitoral, vence. Neste sistema, um único partido pode obter vitória em determinado distrito, dessa forma, há o fortalecimento do sistema bipartidário, pois os dois partidos possuem assim condição de sustentação de votos nos distritos.

Para a eleição do presidente, ao contrário de muitas democracias conhecidas no mundo, nos Estados Unidos há o sistema de colégio eleitoral, pois os americanos não votam diretamente no candidato à presidência como ocorre no Brasil, por exemplo. Então, em cada estado americano, vota-se em uma chapa de “eleitores”, eles são ao todo 538 votos, que representam 50 Estados. Os votos de cada Estado são repassados ao candidato mais votado.

Na prática, os americanos votam num grupo de pessoas que depois vão escolher o presidente e o seu vice. Dos 538 votos, são exigidos que se obtenha pelo menos 270 para que seja eleito presidente dos Estados Unidos. Caso esse número mínimo não seja atingido, o novo presidente é escolhido pela Câmara dos Deputados, dentre os três candidatos mais votados no colégio eleitoral.

Caso nenhum candidato a vice-presidente obtiver a maioria dos votos no colégio eleitoral, o Senado é quem escolhe, entre os dois mais votados no colégio eleitoral.

Em Novembro deste ano, os americanos vão escolher os “eleitores” que por sua vez, em Dezembro vão definir o presidente e seu vice. Neste momento, há dois principais candidatos disputando as prévias para ser o escolhido do partido Republicano e concorrer à corrida presidencial com Obama (Democrata). O ex-governador de Massachusetts, Mitt Romney e o ex-senador Rick Santorum são os principais aspirantes a vaga de candidato do partido republicano.

Mais uma vez, o presidente para o próximo cargo será um republicano ou um democrata, isso ocorre desde 1852. “O Partido Democrata costuma ser tradicionalmente apoiado pelos trabalhadores, sindicados, assalariados, pela maioria das profissões intelectuais (professores, jornalistas, artistas) e por algumas das minorias étnicas (afro-americanos, hispânicos) e religiosas (católicos, judeus), enquanto o seu adversário Republicano costuma ser associado à população dita "Branca, Anglo-Saxônica e Protestante", mais próxima dos meios dos negócios e financeiros, profissões liberais, empreendedores e também das correntes religiosas protestantes maioritárias no país.”

Embora haja predominância do bipartidarismo, há de forma menos importante o Partido Verde, Partido Libertário, Partido Reformista e o Partido da Constituição. O partido Republicano já teve seus grandes representantes. Presidentes que ficaram na memória da história mundial como: Abraham Lincoln, Benjamim Harrison, Richard Nixon, Ronald Reagan e Bush pai e filho.

Já o Partido Democrata já teve ex-presidentes como: Andrew Jackson, Franklin Delano Roosevelt, Harry Truman, John Kennedy, Jimmy Carter, Bill Clinton e o atual presidente estadunidense, Barack Obama.

Talvez um dos melhores exemplos do conservadorismo do Partido Republicano, que se mantém como referência para os presidentes contemporâneos seja Lincoln, com seu espírito político, buscava sempre por discursos baseados na ética, nos bons costumes.

Discurso de Gettysburg

Há 87 anos, os nossos pais deram origem neste continente a uma nova Nação, concebida na Liberdade e consagrada ao princípio de que todos os homens nascem iguais.


Encontramo-nos atualmente empenhados numa grande guerra civil, pondo à prova se essa Nação, ou qualquer outra Nação assim concebida e consagrada, poderá perdurar. Eis-nos num grande campo de batalha dessa guerra. Eis-nos reunidos para dedicar uma parte desse campo ao derradeiro repouso daqueles que, aqui, deram a sua vida para que essa Nação possa sobreviver. É perfeitamente conveniente e justo que o façamos.


Mas, numa visão mais ampla, não podemos dedicar, não podemos consagrar, não podemos santificar este local. Os valentes homens, vivos e mortos, que aqui combateram já o consagraram, muito além do que nós jamais poderíamos acrescentar ou diminuir com os nossos fracos poderes.


O mundo muito pouco atentará, e muito pouco recordará o que aqui dissermos, mas não poderá jamais esquecer o que eles aqui fizeram.


Cumpre-nos, antes, a nós os vivos, dedicarmo-nos hoje à obra inacabada até este ponto tão insignemente adiantada pelos que aqui combateram. Antes, cumpre-nos a nós os presentes, dedicarmo-nos à importante tarefa que temos pela frente – que estes mortos veneráveis nos inspirem maior devoção à causa pela qual deram a última medida transbordante de devoção – que todos nós aqui presentes solenemente admitamos que esses homens não morreram em vão, que esta Nação, com a graça de Deus, renasça na liberdade, e que o governo do povo, pelo povo e para o povo jamais desapareça da face da terra.

— ABRAHAM LINCOLN

19 de Novembro de 1863