domingo, 6 de maio de 2012

Por que Estudar a Mídia?


     Ao se estudar determinados questionamentos, defronta-se muitas das vezes com uma complexidade de divergências. De forma que se deve considerar inúmeros aspectos e pontos que formam a mesma complexidade a fim de compreender o porquê e finalmente a resposta satisfatória para o mesmo questionamento. E, evidentemente abre-se espaço para outras inquietações que certamente se descobrirá num universo de ideias interligadas.
     Ao inquietar-se com questões midiáticas e outras relacionadas, o autor de “Por que estudar a mídia?” Roger Silverstone, esboça ideias um tanto comum, mas que fogem à nossa percepção cotidiana. Questões reflexivas de interesse geral, questões fundamentais que movem o mundo e que sem a força que possuem, a humanidade certamente seria distinta, em seus principais aspectos, do que se conhece na contemporaneidade.
     Questionar suas atribuições e tudo que rodeia a mídia parece um tanto arriscado, pois ser simplório neste caso tende ao erro. E o desenrolar de toda essa perspectiva parece compor-se de distintos aspectos vivos, pois ao se começar a análise, defronta-se com o movimento social inteiramente midiático, estabelecendo-se aí o mergulho da sociedade no mundo das mediações.
     Para se compreender determinados componentes midiáticos, Silverstone inicia pelo senso comum, indica o inconsciente como ponte para se chegar a ideias obscurecidas da mente. A mídia forma a experiência, individual e coletiva, a experiência cotidiana, a mídia se configura como um processo abrangente que se chama mediação, que é feita por nós, e para nós.
     Precisamos compreender como funciona esse processo, suas particularidades, precisamos entender que nós somos a mídia, que nossa participação é protagonista, que ela estabelece nossa rotina, nossos horários, e evidentemente, nosso comportamento.  Saber como a mídia participa e forma a globalização, como ela forma a cultura, como denomina nosso espaço.
     E dentro das perspectivas de avaliação midiática, encontramos elementos relevantes discutidos por Silverstone, tais como: Consumo, Tecnologia, Mediação, Globo, Erotismo e tantos outros. E como agente diversificador, O Outro, pois no reconhecimento deste, há o reconhecimento da diferença, e dessa forma formamos nossa própria identidade, o nosso senso individual. Essas e muitas outras, são questões primordiais que sem dúvida, estabelecem pontos esclarecedores para o questionamento a respeito das atribuições da mídia.
  Evidentemente, há questões ainda mais gerais, como a política da mídia, um tanto polêmica, pois se trata fundamentalmente do poder atribuído à mesma. Poder esse que modifica costumes, introduz outros, o poder de formar opinião e até mesmo de alterar processos políticos.  O poder de mover toda a sociedade, então é tão importante compreender o processo de mediação porque ele simplesmente é a base da nossa vida cotidiana.
     Entender os componentes da mídia é entender nós mesmos. Toda a vida em sociedade, é entender porque a história tomou os rumos que hoje conhecemos, e mais do que isso, é saber lidar com ideias que comandam nosso espaço e dessa forma se libertar do efeito da alienação total.
     Saber quais as implicações da mídia para com a política e nesse sentido, seu poder se faz fundamentalmente nos rumos que tomam os governos na esfera pública. De forma que abrange a todos, seja através dos veículos de comunicação, seja por contato direto e pessoal. O fato é que saber como se dá um processo em que nós estamos envolvidos intimamente, nos ajuda a compreender como funciona nossa sociedade.
     Fica claro dessa forma, que em “Por que estudar a mídia?”, Silverstone, faz uma análise de questões políticas, sociais e econômicas, de como a comunicação concretiza-se na Sociedade do Espetáculo de Guy Debord, de como a mídia é a sociedade e a sociedade é a mídia. Estabelecendo nosso espaço, nossas concepções.






“E nós que estudamos a mídia precisamos tornar a mídia inteligível. Não se trata de um projeto fácil, nem confortável. Mas o perseguimos na esperança de que depositando um grão de areia numa ostra a irritação causada por nossa presunção irá, de tempos em tempos se converter em pérola.”

(pág. 283, Por que estudar a mídia? Roger Silvestone)


domingo, 15 de abril de 2012

Woody Allen e a Junção de Sonho e Realidade

“Os reais querem vidas fictícias e os fictícios querem vida real.”
Cecília, a mocinha, é a fonte de tudo. Ela relata os principais problemas de sua época, os seus maiores problemas. E com os olhos entusiasmados revela sonhos, sonhos de uma vida melhor, de um romantismo original, mostrando-se tão mulher, tão humana, que até no nome espalha brilho, Cecília.


A rosa púrpura do cairo, 1985, Woody Allen

O contexto incentiva a entrega de Cecília ao abraço carinhoso do cinema, era seu refúgio. Década de 30, Nova Jersey, Estados Unidos. A depressão econômica tornava a vida muito difícil, a pobreza e o desemprego são questões lembradas diversas vezes pela personagem.

Vivia-se com um sentimento coletivo de fracasso, compartilhado desde a quebra da bolsa em 29. Jovem, muito bonita, Cecília trabalhava como garçonete para sustentar a casa, era casada com um homem desempregado, a crise fez com que a fábrica onde trabalhava fechasse.

Como se não bastasse, além de ter de trabalhar muito, o marido, um viciado em álcool, levava mulheres para dentro de casa e batia em Cecília. Então a pobre sonhadora vivia a mergulhar nos encantos do cinema.

“A rosa púrpura do Cairo” parece um presente de Woody Allen, que escolhe de forma mágica como demonstrar a impressão de realidade no cinema, que a todos arremata. De como o espectador se sente parte da história, ultrapassando a fotografia que apesar de representar fielmente a realidade capturada, o cinema propõe algo a mais.

O movimento dos elementos representados na tela de cinema sinaliza a existência de vida, nós fazemos uma relação direta entre estar vivo e o movimento. Talvez por isso em primeiro lugar procuramos ficar imóveis quando nos fingimos de mortos.

Woody Allen apresenta “A rosa púrpura do Cairo” em 1985, mas as preocupações são do período em que se passa a história, da Grande Guerra, as pessoas estavam sem esperança ao presenciar a pobreza avançar sobre seus lares. O cinema era a fuga de tantas frustrações, era preciso sonhar um mundo sem problemas, onde tudo era perfeito, onde havia pessoas felizes e inteligentes, apenas desfrutando da vida. Perfeito para suprir as necessidades e o profundo desejo de todos.

O sonho de Cecília com o homem perfeito era realizado com o personagem do filme em que ela assistiu por cinco vezes. Tom Baxter era honesto, fiel, romântico, corajoso e beijava muito bem. Como em todas as vezes em que via o filme, Cecília se nutria de um desejo tão grande de viver aquela realidade, que seu olhar não tinha outra direção.

Então quando o personagem Tom Baxter de repente sai da tela de cinema e vai ao seu encontro na plateia, os mundos se confundem. Será o mundo do cinema a realidade? Ou Cecília está apenas sonhando a tal ponto que o personagem se torne real para ela?

Este é o grande momento em que a impressão de realidade no cinema se extrapola e o personagem consegue interferir no mundo real, consegue tirar sua vida da tela para fora dela. A ficção ganhou contornos concretos, a sensação proporcionada pelo cinema de que aquilo está acontecendo de fato naquele momento, aliada ao movimento do personagem, nos causa a fortíssima impressão de que estamos vivenciando aquilo.

De trata-se de uma história real, então trazemos toda aquela problemática para nós e sofremos ou não, como se fôssemos diretamente afetados. Isso tudo é justificado em emoções demonstradas naturalmente por nós.

Mas Arnheim diz que o cinema está entre o teatro e a fotografia, e por isso entre as duas artes, o cinema possui uma carga maior de realidade. A fotografia, apesar de fidedigna quanto a representação do real, não demonstra a credibilidade suficiente para dotar-se de vida, pois seus elementos não são providos de movimento.

No entanto, o teatro em seus acessórios de produção, nutre-se demasiadamente do real, o público está muito próximo, não há no teatro nenhuma ideia de ficção que forneça ideias no imaginário do expectador. Mas o cinema contém a separação física, a separação de espaço que faz com que quem esteja vendo, altere o seu imaginário e receba aquela situação no momento em que acontece com elementos fictícios, mas que aos olhos já entraram chegando a mente que projeta e sente a realidade do filme.

Em “A rosa púrpura do Cairo” Woody Allen a todo momento, trata dessa impressão de realidade, da realidade do filme que o expectador trás para si, pois Cecília chega a entrar literalmente na tela de cinema, é a representação concreta de como nós adentramos na história. Cecília se envolve de uma forma que sente como se chegasse a se apaixonar pelo personagem. Entra no mundo tão desejado e se sente realizada por viver tudo o que sempre sonhou.

Trata do homem perfeito, dos desejos femininos, das tristezas da época, da mágica que o cinema propõe sobra nossa percepção, sem esquecer que há todo um contexto que irá influenciar diretamente com percebemos o cinema, o estado de espírito de cada um que irá determinar impressão causada pelo filme. De como o expectador se comporta ao interagir com os atores do filme, encarando aquela situação como verdadeira, tratando os personagens como iguais.

De como o cinema está tão inserido na forma como pensamos o real, de como percebemos esta realidade e nos colocamos na história que é contada. Dos elementos que fazem o cinema, nos deixam intimamente participantes do que à primeira vista é ficção, mas que sentimos como se os reais quisessem vidas fictícias e os fictícios quisessem vida real.

Woody Allen não se esquece de demonstrar a intenção do personagem em entrar no mundo real, através de outros personagens que tentam sair da tela para ganhar vida fora da história e termina com o clássico “A alegre divorciada” com Fred Astaire e Ginge Rogers dançando com Fred cantando Cheek to Cheek, música de Frank Sinatra.


                                          A alegre divorciada, 1934, Mark Sandrich

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Bipartidarismo Estadunidense

Bush, o republicano, sai em 2009 para a entrada de Obama, o democrata. Apesar da emergência contemporânea dos dois partidos, nos Estados Unidos, há outros grupos no corpo político do país. Porém, a começar pela constituição estadunidense que em sua criação, em 1787, não recepcionou as funções e nem os próprios partidos políticos, pois muitos grupos ficam de fora da grande plataforma visível. Ocorre que se confere ao país, um sistema bipartidário fruto de arrumações do próprio sistema eleitoral, que na forma como se concretiza, deixa pouquíssimo espaço para outros partidos políticos.

Para o legislativo estadual e nacional, as eleições são feitas no modo distrital de “representante único”. Em outras palavras, aquele que receber o maior número de votos em qualquer distrito eleitoral, vence. Neste sistema, um único partido pode obter vitória em determinado distrito, dessa forma, há o fortalecimento do sistema bipartidário, pois os dois partidos possuem assim condição de sustentação de votos nos distritos.

Para a eleição do presidente, ao contrário de muitas democracias conhecidas no mundo, nos Estados Unidos há o sistema de colégio eleitoral, pois os americanos não votam diretamente no candidato à presidência como ocorre no Brasil, por exemplo. Então, em cada estado americano, vota-se em uma chapa de “eleitores”, eles são ao todo 538 votos, que representam 50 Estados. Os votos de cada Estado são repassados ao candidato mais votado.

Na prática, os americanos votam num grupo de pessoas que depois vão escolher o presidente e o seu vice. Dos 538 votos, são exigidos que se obtenha pelo menos 270 para que seja eleito presidente dos Estados Unidos. Caso esse número mínimo não seja atingido, o novo presidente é escolhido pela Câmara dos Deputados, dentre os três candidatos mais votados no colégio eleitoral.

Caso nenhum candidato a vice-presidente obtiver a maioria dos votos no colégio eleitoral, o Senado é quem escolhe, entre os dois mais votados no colégio eleitoral.

Em Novembro deste ano, os americanos vão escolher os “eleitores” que por sua vez, em Dezembro vão definir o presidente e seu vice. Neste momento, há dois principais candidatos disputando as prévias para ser o escolhido do partido Republicano e concorrer à corrida presidencial com Obama (Democrata). O ex-governador de Massachusetts, Mitt Romney e o ex-senador Rick Santorum são os principais aspirantes a vaga de candidato do partido republicano.

Mais uma vez, o presidente para o próximo cargo será um republicano ou um democrata, isso ocorre desde 1852. “O Partido Democrata costuma ser tradicionalmente apoiado pelos trabalhadores, sindicados, assalariados, pela maioria das profissões intelectuais (professores, jornalistas, artistas) e por algumas das minorias étnicas (afro-americanos, hispânicos) e religiosas (católicos, judeus), enquanto o seu adversário Republicano costuma ser associado à população dita "Branca, Anglo-Saxônica e Protestante", mais próxima dos meios dos negócios e financeiros, profissões liberais, empreendedores e também das correntes religiosas protestantes maioritárias no país.”

Embora haja predominância do bipartidarismo, há de forma menos importante o Partido Verde, Partido Libertário, Partido Reformista e o Partido da Constituição. O partido Republicano já teve seus grandes representantes. Presidentes que ficaram na memória da história mundial como: Abraham Lincoln, Benjamim Harrison, Richard Nixon, Ronald Reagan e Bush pai e filho.

Já o Partido Democrata já teve ex-presidentes como: Andrew Jackson, Franklin Delano Roosevelt, Harry Truman, John Kennedy, Jimmy Carter, Bill Clinton e o atual presidente estadunidense, Barack Obama.

Talvez um dos melhores exemplos do conservadorismo do Partido Republicano, que se mantém como referência para os presidentes contemporâneos seja Lincoln, com seu espírito político, buscava sempre por discursos baseados na ética, nos bons costumes.

Discurso de Gettysburg

Há 87 anos, os nossos pais deram origem neste continente a uma nova Nação, concebida na Liberdade e consagrada ao princípio de que todos os homens nascem iguais.


Encontramo-nos atualmente empenhados numa grande guerra civil, pondo à prova se essa Nação, ou qualquer outra Nação assim concebida e consagrada, poderá perdurar. Eis-nos num grande campo de batalha dessa guerra. Eis-nos reunidos para dedicar uma parte desse campo ao derradeiro repouso daqueles que, aqui, deram a sua vida para que essa Nação possa sobreviver. É perfeitamente conveniente e justo que o façamos.


Mas, numa visão mais ampla, não podemos dedicar, não podemos consagrar, não podemos santificar este local. Os valentes homens, vivos e mortos, que aqui combateram já o consagraram, muito além do que nós jamais poderíamos acrescentar ou diminuir com os nossos fracos poderes.


O mundo muito pouco atentará, e muito pouco recordará o que aqui dissermos, mas não poderá jamais esquecer o que eles aqui fizeram.


Cumpre-nos, antes, a nós os vivos, dedicarmo-nos hoje à obra inacabada até este ponto tão insignemente adiantada pelos que aqui combateram. Antes, cumpre-nos a nós os presentes, dedicarmo-nos à importante tarefa que temos pela frente – que estes mortos veneráveis nos inspirem maior devoção à causa pela qual deram a última medida transbordante de devoção – que todos nós aqui presentes solenemente admitamos que esses homens não morreram em vão, que esta Nação, com a graça de Deus, renasça na liberdade, e que o governo do povo, pelo povo e para o povo jamais desapareça da face da terra.

— ABRAHAM LINCOLN

19 de Novembro de 1863

sexta-feira, 23 de março de 2012

Um passeio entre ex-presidentes

A particularidade do Brasil compõe-se de tantas outras, advindas exatamente da diversidade de situações incrivelmente modeladoras da memória nacional. A política em especial quase nunca se repete, talvez por isso sempre houvesse incertezas quanto ao futuro. Toda a história da política nacional é passível de entendimento simples, talvez exatamente pela aura conferida a cada governo.

Após o regime, muito de novo surgiu, e os governos muito têm a contar. Em Janeiro de 1985, José Sarney (na época senador do Maranhão pelo PDS) é eleito vice de Tancredo Neves, através ainda de Colegiado. Antes mesmo da posse, Tancredo perde o posto de presidente por ação de um tumor, e Sarney torna-se presidente da república sendo surpreendido com uma bomba. O presidente é informado através do Conselho de Segurança Nacional, de que há um buraco na Serra do Cachimbo (PA) que seria utilizado para experiências com bomba nuclear.

Sarney conta ainda, que havia um projeto para que João Batista Figueiredo fizesse um anúncio com a intenção de que o Brasil entrasse para o clube nuclear. Nada foi divulgado, pois a relação entre Brasil e Argentina mantinha-se segura, e o país vizinho também estava na corrida nuclear, tal revelação despertaria uma mal estar desnecessário.

Mas a bomba maior o próprio Sarney continha, tomou a decisão de renunciar devido a divergências com o Congresso Nacional, mas Sarney continuou na presidência, e antes disso ouviu um conselho de Tancredo. O ex-presidente revela que para que a dupla vencesse a eleição e posteriormente não haver reação militar, deveriam adotar uma articulação onde seria fundamental a escolha do Ministro do Exército. Então o escolhido foi o general Leônidas Pires Gonçalves, desse modo, a eleição de Tancredo e Sarney, foi praticamente fruto de articulação.

Mas Sarney tinha problemas com a economia em seu governo, chegou a dizer: “Fui o pior presidente quando fiz o Plano Cruzado 2. Naquele dia tomei a pior decisão entre as opções que me deram.” Com a inflação nas alturas, surge o jovem Caçador de Marajás, “carioca das Alagoas”. Collor perdeu além da presidência, o irmão Pedro Collor, em 1994, sua mãe Dona Leda em 1995 e, o amigo PC Farias em 1996.

Antes disso, Collor sofreria como poucos. No período pré-impeachment, o ex-presidente confessou que quase chegou a cometer suicídio. Trancou-se na biblioteca e iniciou uma gravação em áudio, uma mensagem para a família, mas segundo ele, depois desistiu, lembrando-se de um conselho de Brizola; pedindo para ele não fazer o mesmo gesto de Getúlio.

Fernando Collor sustenta a ideia que não teria sofrido impeachment caso tivesse uma relação mais amigável com o Congresso. “Maioria parlamentar se conquista com salamaleques, churrascos, almoços, jantares, intimidades. Mas não sou de ficar dando tapinha na barriga.”

Segundo ele, tinha uma condição apertada de obter vitória no senado, mas seus correligionários na hora H mudaram de lado, e a única saída foi renunciar, que de qualquer forma não teve maiores efeitos.

Collor nunca teve uma boa relação com Itamar Franco, o escolheu porque precisava de alguém de Minas Gerais, como um candidato conhecido por fazer política no Nordeste, seria importante que alguém de uma região importante do país o acompanhasse. Itamar desistiu diversas vezes de ser o vice de Collor antes das eleições. Alguns anos após, ele se referia a Itamar do seguinte modo: “Itamar é uma negativa de que há vida inteligente na terra”.

“Vice? Não tê-lo, não sê-lo e, de preferência, nem vê-lo.” Fernando Collor de Mello.

Interessante, como a vida apronta surpresas. No Rio de Janeiro, quando criança, Collor saia de casa para ir à escola, quando passou pela sala, encontrou um homem à espera de seu pai, este homem lhe deu um conselho. “Não se esqueça: só vence na vida quem estuda. Estude muito.” Quem dava o conselho era nada menos que Jânio Quadros.

Anos após, Jânio seria informado de que não poderia disputar as eleições de 1989 porque outro candidato já teria tomado seu espaço. Não teria mais chance para Jânio Quadros, este candidato era Collor. O jovem presidente cometeu um erro crasso ao tentar estabilizar a economia com o Plano Collor e se arrepende muito disso, em seu próprio governo o economista André Lara Resende propôs um plano audacioso para a estabilização da macroeconomia, mas em pouco tempo teve de deixar a presidência e, Fernando Collor mais tarde descobriu que tal plano tratava-se nada menos do Plano Real.

Seu vice, não muito querido, assume o poder em seu lugar. Mas o momento é extremamente perigoso, então surgem dois deputados e um senador sugerindo a Itamar que fechasse o Congresso, os parlamentares defendiam que existia corrupção generalizada na Comissão de Orçamento na época, em 1993.

“A imprensa achava que eu era bobo porque fui deixado Fernando Henrique ser ‘primeiro-ministro’. Era proposital”.  Itamar Franco

O ex-vice de Collor, depois de ter ajudado Fernando Henrique a chegar à presidência, não nutria mais uma boa relação com o tucano. Itamar disse que Fernando mudou bastante, algum tempo depois de virar presidente, que ele era bastante diferente quando ainda era senador da república. “É hoje um homem que pensa que inventou a democracia. Pensa que inventou o Plano Real.”

Pelo MDB (Movimento Democrático Brasileiro) Fernando Henrique Cardoso foi o segundo candidato mais votado do partido. Seu apoio veio do metalúrgico, Luis Inácio Lula da Silva em 1978. Em 1983 o chamado príncipe da sociologia assumiu sua cadeira no senado, pois Franco Montoro tornou-se governador de São Paulo.

Durante seu governo Fernando Henrique recebeu sugestões surpreendentes. Ele conta que Bill Clinton (na época presidente dos Estados Unidos) sugeriu ao presidente brasileiro que o país fosse mais presente na Colômbia e mesmo no Oriente Médio, na verdade, seria uma presença militar. Outra surpresa teve ainda enquanto chanceler de Itamar Franco. Na época, o secretário de estado americano, chegou a indagar Cardoso sobre uma informação de que o Brasil estaria obtendo material bélico da Rússia a fim de produzir mísseis.

Embora o bizarro fosse mesmo outra coisa. Antes das eleições para a prefeitura de São Paulo, Fernando Henrique tirou uma foto na cadeira de prefeito. Além de derrotar Fernando Henrique, Jânio Quadros desinfetou a cadeira, típico da riquíssima personalidade do também ex-presidente.

Apesar de Itamar ter falecido em 2011, a incrível contribuição/participação desses quatro importantíssimos ex-presidentes é inegavelmente relevante. Juntos formam um período decisivo para a história do país. O Brasil que hoje está entre as maiores potências do mundo, é fruto fundamentalmente dos governos então lembrados, repletos de erros, acertos e experiências nunca antes vividas. A história do nosso país é também assim, como muitos brasileiros não sabem, cheia de curiosidades, de momentos compartilhados por poucos, mas que foram diretamente decisivos para o que hoje sabemos do Brasil.







































domingo, 11 de março de 2012

Duas Copas e Alguns “Brasis” no Meio

16 de Julho, 1950.


    A seleção brasileira abriu o placar aos 47 minutos com gol de Friaça. O Uruguai, 19 minutos depois, empata a partida com Schiaffino: o empate dava a vitória aos brasileiros. Entretanto, aos 79 minutos, Ghiggia vira o placar para os uruguaios, dando o segundo título ao Uruguai, em torno de 200 mil pessoas em silêncio veem o término da Copa de 50, o início de um famoso fato histórico para o esporte mundial “O Maracanaço” e o sonho de ser campeão se tranformar em frustração.

    Era um ano antológico para o país, o Brasil sediava a Copa do Mundo de Futebol após a Segunda Guerra Mundial, no dia 18 de Setembro foi inaugurada oficialmente a televisão brasileira e, portanto, a Copa não pôde ser transmitida, pois o evento ocorreu entre os dias 24 de Junho e 16 de Julho. Em 1950, apenas 20% da população brasileira era da zona urbana, contando com os 80% da zona rural, somavam-se 53 milhões de habitantes.

    Naquele ano, o atual presidente, Eurico Gaspar Dutra (PSD), além de receber a Copa do Mundo no Brasil, viu o então na época senador, Getúlio Vargas (PTB) ser eleito presidente do Brasil com 47,8% dos votos, marcando sua volta ao comando do país, ao som de sua marchinha colocando o retrato do velho na parede mais uma vez.

    Enquanto o mundo chegava a quarta fase da industrialização (ou fase final), os brasileiros conheciam apenas empreendimentos centrados na produção de bens perecíveis e semiduráveis, que por seu caráter imediatista, a oferta de seus produtos não passava do contingente da demanda, isso muda mais tarde com a política de indústria nacional pesada no segundo governo Vargas.

    Há pouco mais de dois anos para a Copa de 2014, o atraso nos preparativos para o mundial está extrapolando o limite da educação entre autoridades responsáveis pela organização do evento. Contudo, parece que já estamos acostumados com expectativas do gênero, pois o jornalista esportivo Teixeira Heizer descreve o clima da Copa de 1950: "O que havia naquela época era essa perspectiva sombria de que não ia dar certo, de que não íamos ter o estádio pronto a tempo da Copa. Era uma expectativa dolorosa de que não íamos fazer a coisa a tempo, como hoje também". Os cariocas temiam que o Maracanã não ficasse pronto a tempo.

    Em 2014, o filme é parecido, será ano de eleição presidencial e assim como Getúlio Vargas, o provável é que a atual presidenta Dilma Rousseff (PT) tente reeleição, caso o ex-presidente Lula não queira ser candidato novamente. Mais provável ainda será o clássico embate entre PT x PSDB. Embora as semelhanças, entre as duas Copas são 64 anos de incríveis transformações nos mais diversos aspectos.

    Nesse meio-tempo o país passou por um regime militar, redemocratizou-se, presenciou o impeachment de um presidente, viu a renúncia de outro, conheceu altos e baixos na Economia até se estabilizar com o Plano Real em 1994, então a partir daí entrou numa fase de desenvolvimento contínua. Abraçando a ideia de abertura para a política externa e prezando por boas relações internacionais, aos poucos a nação que se entristeceu com a derrota na Copa de 50, começa a vencer, especialmente a partir da década de 90. A população saltou de 53 milhões para quase 200 milhões, indicado pelo último censo realizado em 2010.

    O Brasil saiu da posição de indústria baseada em produtos perecíveis, para a 6° economia do mundo, e estimativas contam que o país será o 5° mais rico em 2014. Houve significativa redução da pobreza. Na década de ouro o evento foi realizado em seis estádios de futebol, em 2014 será o dobro. O próximo evento será infinitamente distinto daquele em que o Brasil foi vice-campeão, serão 64 anos de fatos decisivos, é outro país, outra realidade.

    Estão sendo gastos com a Copa do Mundo cifras de dinheiro a se perder no horizonte, mudanças na infraestrutura bastante significativas serão feitas. Apesar de todos os problemas, divergências, atrasos, no ano da próxima Copa do Mundo de Futebol, o país sede já é uma potência econômica e em 2014 será ainda maior. Será um evento essencialmente distinto daquele precário que foi em 1950, foram muitos “Brasis” nesse tempo, o caráter social encontra-se em outra dimensão, a política e seus agentes vivos trabalham desde já para a eleição de 2014, a economia brasileira conheceu a saga descrita por Miriam Leitão e estará numa proporção que seria impensável em 1950. Entre 12 de Junho e 13 de Julho de 2014, será visto em campo o efeito de muitos “Brasis” ao longo da história nacional.











domingo, 26 de fevereiro de 2012

O Plano de Maquiavel para a Imprensa

  

 "Usar a imprensa, usá-la de todos os modos, essa é, hoje, a lei dos poderes que pretendem viver"


    Podem-se admitir perfeitamente concepções distintas e necessariamente opositoras. Porém, a ideia de que a imprensa opera como ferramenta de manutenção da democracia, em nada foge aos ditames sociais do presente. Evidentemente não há homogeneidade na imprensa, mesmo no sentido de reproduzir o poder em todas as suas características e implicações. Há de se convir, que existem segmentos da imprensa que adotam diferentes óticas de entendimento político, exatamente por conterem distintas afinidades junto aos governos.

    Em detrimento de organizações ditatoriais, as distinções políticas conferidas aos jornais, por força maior, são reprimidas. Neste sentido, Nicolau Maquiavel, com uma fascinante lucidez ao tratar de política, expressou abertamente seu projeto de governo ditatorial, para tratar do segmento mais delicado de um governo através da força.

    Ao ser questionado por Montesquieu, no livro “Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu”, Maquiavel discorre sobre como deverá agir um príncipe perante a imprensa num regime absolutista. Em seu tempo, o autor de “O Príncipe” descreve a imprensa europeia no século XIX. “Na maior parte dos países parlamentares, a imprensa tem o talento de tornar-se detestável, pois está sempre a serviço apenas das paixões violentas, egoístas, exclusivas. Porque ela denigre por conveniência, generosidade e patriotismo; enfim e, sobretudo, porque você nunca fará compreender a grande massa de um país para o que ela pode servir.”

    Através de estratégias mercadológicas, e neste sentido propõe-se um abuso na cobrança de impostos. Legislativas, para os momentos mais críticos. A ideia é controlar todos os que fazem a imprensa, mesmo os jornais do exterior devem ser banidos, fazendo-se patrulha nas fronteiras a todo e qualquer panfleto de caráter oposicionista, comprando as agências receptoras de informações de outras regiões.

    Mas estas não passam de ideias comuns aos governos absolutistas, o projeto de Maquiavel vai além do império da força. Ciente do espaço conferido às empresas de publicidade, e neste caso aos jornais, ele propõe que seu governo torne-se o próprio jornalismo, criaria o dobro de jornais em seu favor, considerando a quantidade destes que se opõem ao seu regime.

    Sugere montar um sistema para a imprensa de forma que tudo fosse controlado e previamente pensado, os jornais que em tese, criticariam superficialmente o regime, os apoiadores e, os neutros. Tudo seria feito de modo que a opinião pública entendesse que os jornais possuíssem liberdade para tratar de política sem amarras. Essa falsa sensação de liberdade seria concretizada quando, os jornais que supostamente criticassem o governo, tivessem que tornar público uma nota do próprio governo colocando que a informação do periódico não era verdadeira, de que eles possuem liberdade de expressão, no entanto publicam notícias falsas, colocando dessa forma, a própria opinião pública contra o jornal.


    Os mecanismos explicados por Maquiavel para o controle de toda e qualquer informação, de fato é algo grandioso e muito bem pensado, na riqueza de detalhes que proporciona assim um sistema eficiente para seu tempo. Embora tão bem elaborado, hoje, existe uma interação que poria a baixo todo o sistema de controle elaborado pelo príncipe.

    A globalização permite que todas as partes do mundo, possam saber o que ocorre em outras regiões. Hoje, não dá mais para impedir a interferência da imprensa do exterior, sobretudo através da internet, talvez a ferramenta mais importante neste sentido.

    Embora haja expressiva evolução no reconhecimento da importância da imprensa de modo geral, toda a manipulação pensada por Maquiavel para manter vivo um regime absolutista, mantém-se abertamente ou não. Através da imprensa, o poder público chega a manipular a opinião pública. Em alguns países, alguns jornais declaram abertamente suas afinidades políticas, todavia, com a bandeira de imprensa independente, alguns veículos de forma invisível para o público comum, agem mesmo no sentido de direcionar criticas num formato tendencioso traduzido pela opinião pública como a verdade.

    Há quem confie que o aparente caráter de neutralidade, mesmo que por vezes desonesto, é fundamental para manter a confiabilidade. Talvez a problemática maior seja mesmo a confiabilidade inconsciente que caracteriza o censo comum e certamente define os líderes da política. De todo modo, o engenhoso projeto absolutista de Maquiavel para amordaçar a imprensa, se valendo do próprio jornalismo, mantém-se vivo, mesmo em concorrência com a ampla transparência proporcionada pela contemporaneidade, ainda assim, a política exige lados.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A Nigéria Pobre e Rica



    Por conta da prosperidade proveniente da comercialização do petróleo, distintas nações provam de conflitos internos e externos, e em se tratando de regiões mais pobres, esses mesmos conflitos são mais frequentes no caráter civil. Há, no entanto, outras causas possíveis, sobretudo em regiões habitadas por povos com diversificação cultural.

   Em decorrência da localização geográfica, favorável ao comércio marítimo em épocas remotas, o continente africano serviu para diferentes nações no decorrer da história e, mesmo na contemporaneidade o choque cultural age de forma negativa.

   A Nigéria, centro-oeste da África, convive com dificuldades internas históricas. O país precisa combater uma seita identificada como Bokon Haram, um grupo islâmico cujas ações já fizeram mais de 900 mortos em dois anos, a reivindicação do grupo é de que seja feita uma extensão do uso da sharia (lei islâmica), e por conta desses protestos violentos, segundo a Reuters, o país já gasta 2% do PIB nacional com segurança.

   O país mais populoso do continente africano, com estimativas de que em 2100, atingirá 602 milhões de habitantes, ao mesmo que se proprõe como promessa para o mercado petrolífero, guarda mazelas sociais mais remotas dentre os países que possuem um crescimento economico semelhante ao seu.

   Os nigerianos sofrem, sobretudo, com a miserabilidade, com uma infraestrutura quase inexistente, a cada dia mais ineficiente devido ao crescimento demográfico sem controle. A Nigéria cresce num ritmo acelerado.

   Em 2010, seu PIB obteve um crescimento de 7,9%, entre os maiores do mundo. Embora, sua importância como fonte de petróleo e outros recursos naturais, seja amplamente reconhecida, assim como Gana, outro país do continente africano, o que mais cresceu em 2011 no mundo, povos dessa região, ficam impossibilitados de qualquer progresso social.

   Embora menos de 25% da população tenha caráter urbano, nem mesmo a agricultura de subsistência pode acompanhar o crescimento demográfico. O país possui em torno de um milhão de quilometros quadrados de reserva de minério fóssil. Contudo, não há as mínimas condições para a grande parte dos habitantes. As pessoas vivem na extrema pobreza, em decorrência da corrupção, do desvio de verbas.




   Obviamente, a problemática que atende pelo nome de pobreza, não está atrelada necessariamente a falta de recursos, haja vista o que não faltar na Nigéria, e em outras nações do continente africando, conhecido especialmente pela miséria assassina.

    Ocorre que mesmo lá, onde a seca faz do povo, nômades famintos, há como alterar este paradigma social conhecido no mundo inteiro. A má gestão, a corrupção concretizando o péssimo uso de recursos, são certamente responsáveis imediatos pelos milhares de seres humanos que antes de qualquer coisa, apenas sofrem e morrem cedo, na ausência de dignidade mínima para a sobrevivência.

   As milhares de crianças que chegam a falecer antes dos dois anos de idade, que são atacadas ainda vivas por abutres, são frutos da pura corrupção, da pura ausência de verdadeira democracia, da falta de qualquer responsabilidade social, da displicência de outros que pouco se importam com sua nação, nação de pobres, famintos e inocentes.

   Posto que até o continente visto como o mais pobre do mundo, na verdade é riquíssimo, podendo melhorar e muito a vida dos que lá habitam, a pobreza parece estar tão somente na vontade de quem pode mudar e dessa forma, traçar diretrizes no âmbito social, tão fundamentais, diminuindo o sofrimento de quem tanto sofre, injustamente.