domingo, 11 de março de 2012

Duas Copas e Alguns “Brasis” no Meio

16 de Julho, 1950.


    A seleção brasileira abriu o placar aos 47 minutos com gol de Friaça. O Uruguai, 19 minutos depois, empata a partida com Schiaffino: o empate dava a vitória aos brasileiros. Entretanto, aos 79 minutos, Ghiggia vira o placar para os uruguaios, dando o segundo título ao Uruguai, em torno de 200 mil pessoas em silêncio veem o término da Copa de 50, o início de um famoso fato histórico para o esporte mundial “O Maracanaço” e o sonho de ser campeão se tranformar em frustração.

    Era um ano antológico para o país, o Brasil sediava a Copa do Mundo de Futebol após a Segunda Guerra Mundial, no dia 18 de Setembro foi inaugurada oficialmente a televisão brasileira e, portanto, a Copa não pôde ser transmitida, pois o evento ocorreu entre os dias 24 de Junho e 16 de Julho. Em 1950, apenas 20% da população brasileira era da zona urbana, contando com os 80% da zona rural, somavam-se 53 milhões de habitantes.

    Naquele ano, o atual presidente, Eurico Gaspar Dutra (PSD), além de receber a Copa do Mundo no Brasil, viu o então na época senador, Getúlio Vargas (PTB) ser eleito presidente do Brasil com 47,8% dos votos, marcando sua volta ao comando do país, ao som de sua marchinha colocando o retrato do velho na parede mais uma vez.

    Enquanto o mundo chegava a quarta fase da industrialização (ou fase final), os brasileiros conheciam apenas empreendimentos centrados na produção de bens perecíveis e semiduráveis, que por seu caráter imediatista, a oferta de seus produtos não passava do contingente da demanda, isso muda mais tarde com a política de indústria nacional pesada no segundo governo Vargas.

    Há pouco mais de dois anos para a Copa de 2014, o atraso nos preparativos para o mundial está extrapolando o limite da educação entre autoridades responsáveis pela organização do evento. Contudo, parece que já estamos acostumados com expectativas do gênero, pois o jornalista esportivo Teixeira Heizer descreve o clima da Copa de 1950: "O que havia naquela época era essa perspectiva sombria de que não ia dar certo, de que não íamos ter o estádio pronto a tempo da Copa. Era uma expectativa dolorosa de que não íamos fazer a coisa a tempo, como hoje também". Os cariocas temiam que o Maracanã não ficasse pronto a tempo.

    Em 2014, o filme é parecido, será ano de eleição presidencial e assim como Getúlio Vargas, o provável é que a atual presidenta Dilma Rousseff (PT) tente reeleição, caso o ex-presidente Lula não queira ser candidato novamente. Mais provável ainda será o clássico embate entre PT x PSDB. Embora as semelhanças, entre as duas Copas são 64 anos de incríveis transformações nos mais diversos aspectos.

    Nesse meio-tempo o país passou por um regime militar, redemocratizou-se, presenciou o impeachment de um presidente, viu a renúncia de outro, conheceu altos e baixos na Economia até se estabilizar com o Plano Real em 1994, então a partir daí entrou numa fase de desenvolvimento contínua. Abraçando a ideia de abertura para a política externa e prezando por boas relações internacionais, aos poucos a nação que se entristeceu com a derrota na Copa de 50, começa a vencer, especialmente a partir da década de 90. A população saltou de 53 milhões para quase 200 milhões, indicado pelo último censo realizado em 2010.

    O Brasil saiu da posição de indústria baseada em produtos perecíveis, para a 6° economia do mundo, e estimativas contam que o país será o 5° mais rico em 2014. Houve significativa redução da pobreza. Na década de ouro o evento foi realizado em seis estádios de futebol, em 2014 será o dobro. O próximo evento será infinitamente distinto daquele em que o Brasil foi vice-campeão, serão 64 anos de fatos decisivos, é outro país, outra realidade.

    Estão sendo gastos com a Copa do Mundo cifras de dinheiro a se perder no horizonte, mudanças na infraestrutura bastante significativas serão feitas. Apesar de todos os problemas, divergências, atrasos, no ano da próxima Copa do Mundo de Futebol, o país sede já é uma potência econômica e em 2014 será ainda maior. Será um evento essencialmente distinto daquele precário que foi em 1950, foram muitos “Brasis” nesse tempo, o caráter social encontra-se em outra dimensão, a política e seus agentes vivos trabalham desde já para a eleição de 2014, a economia brasileira conheceu a saga descrita por Miriam Leitão e estará numa proporção que seria impensável em 1950. Entre 12 de Junho e 13 de Julho de 2014, será visto em campo o efeito de muitos “Brasis” ao longo da história nacional.











domingo, 26 de fevereiro de 2012

O Plano de Maquiavel para a Imprensa

  

 "Usar a imprensa, usá-la de todos os modos, essa é, hoje, a lei dos poderes que pretendem viver"


    Podem-se admitir perfeitamente concepções distintas e necessariamente opositoras. Porém, a ideia de que a imprensa opera como ferramenta de manutenção da democracia, em nada foge aos ditames sociais do presente. Evidentemente não há homogeneidade na imprensa, mesmo no sentido de reproduzir o poder em todas as suas características e implicações. Há de se convir, que existem segmentos da imprensa que adotam diferentes óticas de entendimento político, exatamente por conterem distintas afinidades junto aos governos.

    Em detrimento de organizações ditatoriais, as distinções políticas conferidas aos jornais, por força maior, são reprimidas. Neste sentido, Nicolau Maquiavel, com uma fascinante lucidez ao tratar de política, expressou abertamente seu projeto de governo ditatorial, para tratar do segmento mais delicado de um governo através da força.

    Ao ser questionado por Montesquieu, no livro “Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu”, Maquiavel discorre sobre como deverá agir um príncipe perante a imprensa num regime absolutista. Em seu tempo, o autor de “O Príncipe” descreve a imprensa europeia no século XIX. “Na maior parte dos países parlamentares, a imprensa tem o talento de tornar-se detestável, pois está sempre a serviço apenas das paixões violentas, egoístas, exclusivas. Porque ela denigre por conveniência, generosidade e patriotismo; enfim e, sobretudo, porque você nunca fará compreender a grande massa de um país para o que ela pode servir.”

    Através de estratégias mercadológicas, e neste sentido propõe-se um abuso na cobrança de impostos. Legislativas, para os momentos mais críticos. A ideia é controlar todos os que fazem a imprensa, mesmo os jornais do exterior devem ser banidos, fazendo-se patrulha nas fronteiras a todo e qualquer panfleto de caráter oposicionista, comprando as agências receptoras de informações de outras regiões.

    Mas estas não passam de ideias comuns aos governos absolutistas, o projeto de Maquiavel vai além do império da força. Ciente do espaço conferido às empresas de publicidade, e neste caso aos jornais, ele propõe que seu governo torne-se o próprio jornalismo, criaria o dobro de jornais em seu favor, considerando a quantidade destes que se opõem ao seu regime.

    Sugere montar um sistema para a imprensa de forma que tudo fosse controlado e previamente pensado, os jornais que em tese, criticariam superficialmente o regime, os apoiadores e, os neutros. Tudo seria feito de modo que a opinião pública entendesse que os jornais possuíssem liberdade para tratar de política sem amarras. Essa falsa sensação de liberdade seria concretizada quando, os jornais que supostamente criticassem o governo, tivessem que tornar público uma nota do próprio governo colocando que a informação do periódico não era verdadeira, de que eles possuem liberdade de expressão, no entanto publicam notícias falsas, colocando dessa forma, a própria opinião pública contra o jornal.


    Os mecanismos explicados por Maquiavel para o controle de toda e qualquer informação, de fato é algo grandioso e muito bem pensado, na riqueza de detalhes que proporciona assim um sistema eficiente para seu tempo. Embora tão bem elaborado, hoje, existe uma interação que poria a baixo todo o sistema de controle elaborado pelo príncipe.

    A globalização permite que todas as partes do mundo, possam saber o que ocorre em outras regiões. Hoje, não dá mais para impedir a interferência da imprensa do exterior, sobretudo através da internet, talvez a ferramenta mais importante neste sentido.

    Embora haja expressiva evolução no reconhecimento da importância da imprensa de modo geral, toda a manipulação pensada por Maquiavel para manter vivo um regime absolutista, mantém-se abertamente ou não. Através da imprensa, o poder público chega a manipular a opinião pública. Em alguns países, alguns jornais declaram abertamente suas afinidades políticas, todavia, com a bandeira de imprensa independente, alguns veículos de forma invisível para o público comum, agem mesmo no sentido de direcionar criticas num formato tendencioso traduzido pela opinião pública como a verdade.

    Há quem confie que o aparente caráter de neutralidade, mesmo que por vezes desonesto, é fundamental para manter a confiabilidade. Talvez a problemática maior seja mesmo a confiabilidade inconsciente que caracteriza o censo comum e certamente define os líderes da política. De todo modo, o engenhoso projeto absolutista de Maquiavel para amordaçar a imprensa, se valendo do próprio jornalismo, mantém-se vivo, mesmo em concorrência com a ampla transparência proporcionada pela contemporaneidade, ainda assim, a política exige lados.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A Nigéria Pobre e Rica



    Por conta da prosperidade proveniente da comercialização do petróleo, distintas nações provam de conflitos internos e externos, e em se tratando de regiões mais pobres, esses mesmos conflitos são mais frequentes no caráter civil. Há, no entanto, outras causas possíveis, sobretudo em regiões habitadas por povos com diversificação cultural.

   Em decorrência da localização geográfica, favorável ao comércio marítimo em épocas remotas, o continente africano serviu para diferentes nações no decorrer da história e, mesmo na contemporaneidade o choque cultural age de forma negativa.

   A Nigéria, centro-oeste da África, convive com dificuldades internas históricas. O país precisa combater uma seita identificada como Bokon Haram, um grupo islâmico cujas ações já fizeram mais de 900 mortos em dois anos, a reivindicação do grupo é de que seja feita uma extensão do uso da sharia (lei islâmica), e por conta desses protestos violentos, segundo a Reuters, o país já gasta 2% do PIB nacional com segurança.

   O país mais populoso do continente africano, com estimativas de que em 2100, atingirá 602 milhões de habitantes, ao mesmo que se proprõe como promessa para o mercado petrolífero, guarda mazelas sociais mais remotas dentre os países que possuem um crescimento economico semelhante ao seu.

   Os nigerianos sofrem, sobretudo, com a miserabilidade, com uma infraestrutura quase inexistente, a cada dia mais ineficiente devido ao crescimento demográfico sem controle. A Nigéria cresce num ritmo acelerado.

   Em 2010, seu PIB obteve um crescimento de 7,9%, entre os maiores do mundo. Embora, sua importância como fonte de petróleo e outros recursos naturais, seja amplamente reconhecida, assim como Gana, outro país do continente africano, o que mais cresceu em 2011 no mundo, povos dessa região, ficam impossibilitados de qualquer progresso social.

   Embora menos de 25% da população tenha caráter urbano, nem mesmo a agricultura de subsistência pode acompanhar o crescimento demográfico. O país possui em torno de um milhão de quilometros quadrados de reserva de minério fóssil. Contudo, não há as mínimas condições para a grande parte dos habitantes. As pessoas vivem na extrema pobreza, em decorrência da corrupção, do desvio de verbas.




   Obviamente, a problemática que atende pelo nome de pobreza, não está atrelada necessariamente a falta de recursos, haja vista o que não faltar na Nigéria, e em outras nações do continente africando, conhecido especialmente pela miséria assassina.

    Ocorre que mesmo lá, onde a seca faz do povo, nômades famintos, há como alterar este paradigma social conhecido no mundo inteiro. A má gestão, a corrupção concretizando o péssimo uso de recursos, são certamente responsáveis imediatos pelos milhares de seres humanos que antes de qualquer coisa, apenas sofrem e morrem cedo, na ausência de dignidade mínima para a sobrevivência.

   As milhares de crianças que chegam a falecer antes dos dois anos de idade, que são atacadas ainda vivas por abutres, são frutos da pura corrupção, da pura ausência de verdadeira democracia, da falta de qualquer responsabilidade social, da displicência de outros que pouco se importam com sua nação, nação de pobres, famintos e inocentes.

   Posto que até o continente visto como o mais pobre do mundo, na verdade é riquíssimo, podendo melhorar e muito a vida dos que lá habitam, a pobreza parece estar tão somente na vontade de quem pode mudar e dessa forma, traçar diretrizes no âmbito social, tão fundamentais, diminuindo o sofrimento de quem tanto sofre, injustamente.


sábado, 28 de janeiro de 2012

Ilhas Falklands: A Disputa Pelo Petróleo

   Enquanto o mundo se debruça sobre a crise financeira, Reino Unido e Argentina disputam a soberania nas Ilhas Malvinas (em inglês Falkland Islands). A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, mantém a discussão em todo discurso, em todo fórun internacional, defende que o Reino Unido precisa respeitar resoluções da ONU, conseguida em 1965 pela Argentina, a resolução de número 2065, diz que trata-se de um problema colonial e por esse motivo, Cristina defende o diálogo para que se resolva o problema, posto que o Reino Unido possui um assento permanente no conselho de segurança das Nações Unidas e por esse motivo deve zelar pela manutenção das boas relações internacionais com diálogos.

   Há meses, uma empresa britânica, encontrou uma reserva de 500 milhões de barris de petróleo no fundo do mar, ao norte das ilhas e, promete estar extraindo petróleo em cinco anos, além do grande potencial pesqueiro. O território no Atlântico Sul, entrou novamente nas discussões quando em 2010, uma cúpula do Mercosul, formada por Brasil, Uruguai e Paraguai- que declaram apoio à Argentina- juntaram-se a mesma para proibir a entrada de embarcações com bandeiras das ilhas Malvinas em seus portos. 




   Nas últimas semanas a tensão aumentou por conta de uma ação do governo inglês, quando utilizando-se de manobras militares nas ilhas, provocou a reação do país argentino.Onde este classificou esta como uma decisão “militarista”.  Ao se defender das declarações da presidente argentina, o primeiro-ministro britânico David Cameron diz: “O Conselho de Segurança Nacional, discutiu esta questão; o ponto chave é que apoiamos o direito das Ilhas Falklands à autodeterminação e o que os argentinos têm dito me soa muito mais como colonialismo, as pessoas querem continuar a ser britânicas e os argentinos querem que elas façam outra coisa.” De fato os moradores do arquipélago se dizem satisfeitos com o governo inglês e defendem a permanência da soberania britânica nas ilhas.

   O conflito entre os dois países já foi bem mais intenso, segundo dados históricos, as ilhas foram descobertas por ingleses ainda no século XVII, no entanto, os franceses entraram primeiro no arquipélago. Já no século XVIII, tanto Espanha quando Reino Unido ocuparam o território, mas os ingleses em pouco tempo deixaram as Ilhas Falklands sob o domínio dos espanhóis, que também saíram do local. Em 1820 o governo argentino resolveu ocupá-las, já que se encontram há menos de 500 km da costa do país, mas em 1833 os britânicos voltaram expulsando os argentinos que estavam no arquipélago. A crise maior foi em 1982, quando o general  Leopoldo Fortunato Galtieri, decidiu invadir as ilhas para desta forma, conseguir popularidade, já que o regime militar argentino perdia forças diante da crise econômica provocada pelo próprio regime que já estava em decadência.

   No entanto, no mesmo ano, o Reino Unido conseguiu uma resolução na ONU de número 502, exigindo a saída das tropas argentinas, essa reação surtiu efeito para a popularidade de Margaret Thatcher (primeira-ministra britânica) crescer, haja vista suas medidas econômicas neoliberais, que estavam desagradando parcelas do povo inglês. Os britânicos, sob a chefia da primeira-ministra, venceram. Consolidando o fim do regime militar na Argentina e firmando Margaret Thatcher no poder. Esse episódio está sendo lembrado no filme “A Dama de Ferro” protagonizado por Meryl Streep, que está concorrendo ao Oscar na categoria de melhor atriz no Oscar deste ano, a obra conta a história de Margaret Thatcher incluindo o conflito com a Argentina em 1982.


    As ilhas representam os recursos provenientes do Atlântico Sul, desde a reserva de petróleo ao espaço na região para as rotas de comércio, a medida que o tempo passa, o conflito midiático entre os dois países vai aumentando. A grande expectativa é para o dia 2 de Abril deste ano, onde a Argentina fará 30 anos que invadiu as ilhas dando início ao conflito armado.




- Saiba mais em:
http://g1.globo.com/videos/globo-news/sem-fronteiras/t/todos-os-videos/v/argentina-volta-a-discutir-com-o-reino-unido-a-soberania-das-ilhas-malvinas/1786258/



segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O Incrível Político Jânio

 
 “Sou um homem que presta contas a si mesmo”


   Certamente líderes notáveis, de realce imediatamente reconhecido, espelham-se em outros, que fornecem ampla admiração, traduzida por vezes no comportamento. É dessa forma que Jânio Quadros, o ídolo de Vila Maria (bairro da zona norte de São Paulo); o primeiro político de massas do Brasil, segundo Fernando Henrique Cardoso; o primeiro grande comunicador político a utilizar técnicas não-convencionais, segundo José Sarney; o autentico que encenava a si mesmo, segundo Carlos Lacerda, tinha Abraham Lincoln traduzido em seu espelho.

    Talvez mais impressionante que sua súbita elevação na carreira política, seja sua conduta, sua personalidade. O homem que falava de moralidade com as multidões, agia com inconfundível intimidade com cada um. Seus bilhetinhos, sua forma direta de expressar insatisfações com quem quer que seja.   Sua ambigüidade, inteligência e a paixão pela política. Jânio Quadros nutria verdadeira paixão pela essência da vida pública, pelos ditames do conservadorismo social.

    Jânio, desde a aparência até sua renúncia demonstra o quanto foi e ainda é intrigante, o quanto mesmo transparecendo paradoxos, ao fim de tudo se resume em coerência. Antiquado ao ponto de gerar insatisfações, esperto o necessário para causar surpresa. Há quem fale sobre sua demagogia, há quem fale de sua oratória incrível.



“ Não creio nas concessões demagógicas. Não creio na mentira das promessas. Não creio nos sufrágios da fraude. Não creio nos desmaios da Autoridade. Não creio na desordem administrativa. Não creio nas intolerâncias das filosofias e das confissões. Não creio nas ditaduras de qualquer tendência. Não creio na providência das espórtulas constrangedoras. Não creio no latifúndio anti-social. Não creio, enfim, no que se vê ao nosso alcance e à nossa roda, como se fora democracia, quando é a sua caricatura, a sua cárie! (...)
 Creio, sim, no império da Constituição. Creio na nobreza da Magistratura Suprema. Creio na autenticidade das Casas Legislativas. Creio na moeda sadia, com a qual se pague a despesa corrente e se amealhe o pecúlio do amanhã. Creio no proletariado consciente.  Creio na opinião garantida pelas franquias e limitada pelos códigos. Creio na livre empresa, embora circunscrita pela vantagem da comunhão. Creio na nossa maturidade, que nos impõe caminhar pelo mundo sem tutelas ou temores.”


- Discurso de Jânio Quadros no momento em que foi lançado candidato à presidência, na Convenção Nacional da UDN.

   Seria de fato, acertado dizer que um dos episódios mais intrigantes da política brasileira denomina-se no período em que Jânio Quadros renúncia à presidência do Brasil. Há versão para todo tipo, dúvidas intermináveis, há também um suposto depoimento do próprio Jânio para seu neto Jânio Quadros Neto, que mais tarde, em 1996, foi revelado no livro Jânio Quadros, Memorial à História do Brasil.

    Segundo o livro, a renúncia de Jânio Quadros foi uma tentativa de articulação política, que não passou de um surpreendente fracasso para o próprio presidente. Que contava com o apoio popular, acreditando que a opinião pública de um modo geral, não aceitasse sua renúncia e que as elites não aceitariam Jango na presidência, o comparando a Lula, que na década de 80 não tinha o apoio da elite brasileira.

    Considerando o efeito de outras renúncias.  Jânio achava que da mesma forma que Getúlio em atitude extrema provocou a paixão popular, que o mesmo ocorreria consigo, que o povo brasileiro iria às ruas exigir sua permanência na presidência do Brasil. Provavelmente a renuncia foi o maior erro que um dos grandes fenômenos da política brasileira poderia cometer. E os desdobramentos desta, sua maior frustração e de todo o Brasil.

“Quando assumi a presidência- eu não sabia a verdadeira situação político-econômica do país. A minha renuncia era para ter sido uma articulação. Nunca imaginei que ela teria sido de fato feita e executada. Renunciei à minha candidatura à presidência em 1960 e ela não foi aceita. Voltei com mais fôlego e força. Meu ato de 25 de Agosto de 1961 foi uma tragédia política que não deu certo, uma tentativa de governabilidade. Também foi o maior fracasso político da história republicana do país. O maior erro que já cometi.”

                 
Jânio Quadros, 25 de Agosto de 1991, Hospital Albert Einstein, São Paulo. Seis meses antes de seu falecimento.



    Há, no entanto, outras versões que diferem desta, no sentido de que o presidente sabia o que estava fazendo e renunciou pela forma que pensava, que Jânio tinha razões pessoais de personalidade para querer de fato governar de forma independente como fazia quando governava São Paulo. O que não poderia fazer em Brasília, posta a pressão dos partidos, das elites, das forças externas, das forças nacionais que segundo ele eram forças terríveis (que Getúlio as chamavam de forças ocultas) que mobilizavam os braços da democracia a tornando inofensiva. Talvez querer governar de forma independente como seu ídolo Abraham Lincoln, foi o seu erro, ser solitário demais na política, certamente não é política. Porém, inegavelmente, Jânio foi um político completo.


 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Filme "A onda"

Sinopse

Dirigido por Denis Gansel, A Onda traz a seguinte trama: Rainer Wegner, professor, deve ensinar seus alunos sobre autocracia. Devido ao desinteresse deles, propõe um experimento que explique na prática os mecanismos do fascismo e do poder.

Wegner se denomina o líder daquele grupo, escolhe o lema “força pela disciplina” e dá ao movimento o nome de "A Onda". Em pouco tempo, os alunos começam a propagar o poder da unidade e ameaçar os outros. Quando o jogo fica sério, Wegner decide interrompê-lo. Mas é tarde demais, e "A Onda" já saiu de seu controle. O filme é baseado em uma história real ocorrida na Califórnia em 1967.

 
O enfoque dado ao movimento nazi-fascismo evidencia a popularidade atribuída ao mesmo, por esse ser tema de inúmeras discussões relacionadas aos regimes totalitários. O enredo do filme constrói-se basicamente na forma como o movimento “A onda” ganha força e adeptos num pequeno espaço de tempo e de como funciona uma doutrina ideológica.
      “A onda” coloca questões muito além de apenas moldes doutrinários, de críticas ao nazismo ou qualquer outro regime, pois independente de qualquer ideologia que se adote, o formato, o modo se concretizar o movimento, geralmente são muito semelhantes.
      Pois a principal característica se dá pela idéia de grupo ideológico, que forma suas ideologias, regras, seus costumes, sua expressão, e como figura de destaque, seu líder, esses grupos ideológicos são extremamente comuns mesmo na sociedade contemporânea, onde a tendência de homogeneizar toda a sociedade do espetáculo age coercitivamente.
    Os grupos se formam por indivíduos que se identificam com as políticas pregadas principalmente pelo então líder. E essa identificação é natural, é racional, pois o ser humano sente a necessidade de viver em grupo, na presença de outras cabeças sincronizadas para que dessa forma não haja conflitos.
     Em “A onda” todas essas características são adotadas pelos alunos, pois apesar de recriminarem as ações praticadas pelos líderes do nazi-fascismo, aderem ao movimento formado pelo professor Ross, deixam de ter uma identidade pessoal, para seguirem traços da doutrina, impostos pelo líder de forma coercitiva, alienada, e cegamente tornam o movimento cada vez mais expressivo, é interessante ressaltar que a história real em que se baseia o filme, aconteceu na Califórnia (EUA), onde teoricamente se reprimia fortemente ideologias nazistas.
     É indiscutível a qualidade temática da obra, pois inúmeros aspectos cabem em nível superficial de avaliação, tais como: doutrinas ideológicas, comportamento humano, particularidades sociais e ética, essas são questões claras, a questão social, por exemplo,  se dá pelo fato do grupo se achar superior a qualquer outro, com o absolutismo extremado de esquerda ou direita, concretizado pela recusa de idéias exteriores ao grupo.
      Nesse tipo de movimento o fanatismo é tão presente que quem se recuse a aderir às políticas do grupo, é criticado de forma agressiva em muitas das vezes, podendo chegar à violência. O enredo do filme exemplifica como funcionam os partidos políticos, onde os membros do grupo deixam que a vontade do líder supere seus anseios individuais. 
     Esclarece como o ser age na busca de se identificar e se inserir em algum grupo, formalizando seu instinto na forma do comportamento, e esse seu comportamento marcante, defendendo seus semelhantes, explicam no comportamento humano características animais, no ato de viver em bando, na tendência de seguir à maioria que teoricamente por ser a maioria teria razão. Essas são questões puramente humanas, da idéia de coletividade.


 


“Vocês trocaram sua liberdade pelo luxo de se sentirem superiores. Todos vocês teriam sido bons nazi-fascistas. Certamente iriam vestir uma farda, virar a cabeça e permitir que seus amigos e vizinhos fossem perseguidos e destruídos. O fascismo não é uma coisa que outras pessoas fizeram. Ele está aqui mesmo em todos nós. Vocês perguntam: como que o povo alemão pode ficar impassível enquanto milhares de inocentes seres humanos eram assassinados? Como alegar que não estavam envolvidos. O que faz um povo renegar sua própria história? Pois é assim que a história se repete. Vocês todos vão querer negar o que se passou em “A onda”. Nossa experiência foi um sucesso. Terão ao menos aprendido que somos responsáveis pelos nossos atos. Vocês devem se interrogar: o que fazer em vez de seguir cegamente um líder? E que pelo resto de suas vidas nunca permitirão que a vontade de um grupo usurpe seus direitos individuais. Como é difícil ter que suportar que tudo isso não passou de uma grande vontade e de um sonho”.

    


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

A Equivocada Ku Klux Klan



     A consciência racista e assim a ideia de inferiorizar negros e povos diversos, além de secular, condicionou a formação de ideologias no pólo mais distante da lucidez. Houve momentos em que mesmo guerras foram travadas a partir de um sentimento racista, haja vista as causas da Segunda Guerra Mundial.
     Porém, posições sociais foram alterando-se no decorrer de acomodações até mesmo de acontecimentos divergentes, mas que atuaram no sentido de amadurecer o pensamento social coletivo. Deste modo, na contramaré das mudanças graduais, surgem algumas organizações de fato bem organizadas.
     A Ku Klux Klan, chegou, na década de 20 a contabilizar em torno de 4 milhões de membros. Tudo começou após da Guerra Civil norte-americana em 1865, em Pulaski, no estado de Tennenssee (E.U.A). O receio de que os negros pudessem em algum momento sobressair outros grupos no que tange a direitos como o voto e a aquisição de terras, fez com que na época, o general Nathan Bedford Forrest criasse a primeira versão da Ku Klux Klan.
     Exatamente pelo caráter racista, tal organização mostrou-se bastante intolerante, praticando violência contra quem estivesse fora do círculo ou anel, como significa o nome dado a organização, através da palavra grega “kuklos”.  Esse aspecto conferiu a Ku Klux Klan a nomeação de “entidade terrorista” e por esse motivo foi banida dos Estados Unidos no ano de 1982.
      Este já faz parte do segundo momento da Ku Klux Klan, que voltou em 1915 após uma decadência da organização, através da polêmica obra cinematográfica “O Nascimento de Uma Nação” um filme de David Llewelyn Wark Griffith, uma amostra do cinema mudo.  De 1915, o primeiro filme a ser exibido na Casa Branca, apesar do sucesso, logo foi banido em determinados lugares nos Estados Unidos. Claramente racista, posto que tratasse os afro-americanos com clara discriminação, além da Guerra de Sessão, o assassinato de  Abraham Lincoln, assim como outros conflitos da época nos Estados Unidos que foram assim reproduzidos.
     Episódios como a Segunda Guerra Mundial, serviram direta e indiretamente de fortalecimento do amadurecimento do pensamento quanto à integração de negros em sociedade e a posterior decadência da Ku Klux Klan, que apesar de uma breve aproximação com o nazismo, por determinadas semelhanças de suas linhas ideológicas, enfraqueceu por conta da inviabilidade de próprias linhas, através do fracasso do nazismo na grande guerra.

A Ku Klux Klan adota características próprias, muitas em certo modo, mistificadas.

“... e daquilo que pudessem os noviços do século vinte idear em horrores, mercantilismo secreto, ameaças e compromissos de maior responsabilidade. Os infernos passaram a chamar-se cavernas e as reuniões passaram a realizar-se em grandes locais muitas vezes sob o céu aberto. Não raro milhares de autos vinham reforçar, guardas a cavalo e a cercavam o local e estavam presentes os utensílios com que se entusiasma qualquer bom estadunidense: a bandeira das estrelas, a Bíblia aberta e o punhal desembainha do a fazer pano de fundo, uma cruz em fogo, na noite, projetava uma luz estranhamente tranquilizadora sobre as filas dos agora uniformizados homens dos capuzes brancos...”

     Hoje, a Ku Klux Klan, está praticamente morta, conta com em torno de 3 mil membros, pelo que se sabe. A mais conhecida associação racista, de cunho violento já não faz mais sentido em detrimento de mudanças na consciência coletiva, proporcionando uma reforma social quase generalizada. Recentemente um líder da organização disse que Barack Obama não é negro, segundo Thomas Robb, o presidente dos Estados Unidos é mulato, posto que Obama não foi criado num ambiente negro, haja vista que sua mãe é branca.  Thomas Robb assim mantém o equívoco que foi e continua sendo os protestos da organização e como qualquer equívoco, uma hora ou outra fracassa, gradualmente perdendo espaço porque luta contra forças sociais.


O equívoco da Ku Klux Klan ficou mais concreto quando alguns de seus ex-membros  acusados de um crime terrível contra crianças negras, foram condenados. 

 Veja no link:

http://investigation.discovery.com/investigation/crime-countdowns/bombers/bombers-04.html

                                           Thomas Blanton (2001)